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26.10.2018
Estudo internacional propõe mudanças na abordagem da dor lombar

A dor lombar é um problema que não seleciona um tipo específico de público: pode atingir desde um trabalhador rural até o presidente da república. Especialistas são unânimes em apontar a lombalgia como a ocorrência mais comum entre brasileiros que reclamam de dores nas costas. Não é por acaso, portanto, que configura uma das principais causas de afastamento do trabalho e pedidos de aposentadoria.

Em meio ao sofrimento causado pelo problema, o paciente que busca auxílio recebe do médico, em geral, receitas de fármacos anti-inflamatórios paliativos e opioides – que podem causar dependência. Além disso, é recomendado repouso absoluto e afastamento do trabalho, inclusive pelo fato de a lombalgia ser apontada como fator de risco para depressão, já que torna o indivíduo pouco produtivo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que até 2020 a dor lombar será o principal fator incapacitante no planeta. Hoje, cerca de 80% da população mundial sofre com o sintoma – ou seja, quatro em cada cinco pessoas.

O impacto econômico vai além da ausência no trabalho. Exames caros e complexos costumam ser requisitados na busca por uma causa específica – que muitas vezes não é encontrada. Diante do quadro alarmante, pesquisadores de 12 países realizaram uma revisão sobre a abordagem da lombalgia e publicaram o estudo em março na revista científica The Lancet. A pesquisa aponta o uso indiscriminado de recursos de saúde para o diagnóstico e critica o atual modelo de tratamento, considerado problemático.

De acordo com a pesquisadora Lucíola Costa, professora doutora do Programa de Mestrado e Doutorado em Fisioterapia da Universidade Cidade de São Paulo (UNICID), única brasileira a compor o grupo de estudos, o limite de casos de dor lombar congênita, degenerativa, inflamatória, infecciosa ou tumoral oscila de 3% a 5%. O restante costuma ser de ordem multifatorial.

Lombalgia não é doença

Os cientistas não consideram a lombalgia uma doença, mas um sintoma proveniente de um estilo de vida com má postura e até mesmo de fontes psicológicas – como estresse e depressão. Quando os casos não são congênitos, degenerativos, inflamatórios, infecciosos ou tumorais, são chamados de lombalgia inespecífica.

Na opinião de Lucíola, é preciso haver uma mudança cultural para que o tratamento da disfunção não seja negligenciado. “Quando o paciente não compreende ou não tem resposta satisfatória à sua situação, sente-se inseguro e ansioso, acionando o sistema de alarme do corpo. Essa reação hipersensibiliza o organismo e gera ainda mais dores”, acrescenta. Aqui, entra em cena a chamada neuropsicologia da dor. “O correto é dizer em linguagem simples que não há necessidade de achar um motivo para a dor. O mais comum, inclusive, diz respeito à degeneração natural que acompanha o envelhecimento”, afirma.

Para dor: exercício

O estudo destaca que o repouso, considerado por muitos o recurso mais assertivo para combater a dor, é contraindicado. A pesquisadora brasileira explica que a atividade física é ponto chave para o tratamento mais eficaz. “As dores ocorrem quando os músculos, que dão apoio estrutural e flexibilidade à coluna, enfraquecem e geram tensão nos nervos e demais estruturas da região lombar.” Daí a importância dos exercícios físicos.

Estima-se que o reforço muscular recupera cerca de 90% das lombalgias. Incluir nos hábitos uma rotina de treinamento faz com as crises sejam mais espaçadas e, com o tempo, até mesmo desapareçam. A professora diz ainda que métodos conservadores, em que o fisioterapeuta estimula os movimentos, não apresentam muita eficácia. “É preciso criar uma consciência no paciente, que tem de estar inserido no processo, e não apenas reproduzir orientações médicas sem entendê-las”, considera.

A partir dos novos parâmetros, os cientistas acreditam que entre três e cinco anos seja disseminada uma nova abordagem para a lombalgia. Assim, a expectativa é de que a cirurgia seja encorajada apenas em último caso.

Fonte:Secad

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