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09.03.2017
Menos medicamentos e mais terapias alternativas para tratar a dor nas costas
Novas diretrizes do Colégio Médico Americano, maior associação médica dos EUA, colocam os remédios em segundo plano no tratamento da lombalgia

Por: Itamar Melo

Ginasta dos seis aos 14 anos, a arquiteta Luiza Seifred foi forçada a abandonar o esporte há pouco mais de uma década por causa de fortes dores na região lombar e no quadril. Teve de trocar os treinos e as competições por uma penosa peregrinação por consultórios. Tentou vários médicos, tomou remédios de todo tipo e fez infiltrações com corticoides, mas o problema nunca ia embora.

Cinco anos atrás, encontrou um ortopedista que sugeriu uma via não medicamentosa, que combinava exercícios para reforçar a musculatura e uma terapia de Reeducação Postural Global (RPG), feita sob orientação de uma fisioterapeuta.

O reforço muscular não produziu grandes efeitos, mas depois de algum tempo Luiza, hoje com 26 anos, percebeu que o RPG estava trazendo alívio. Depois de anos de sofrimento e limitações no dia a dia, a dor nas costas desapareceu. E sem necessidade de qualquer remédio.

— Era muito jovem, e ainda sou, e nunca achei que anti-inflamatórios e infiltrações fossem uma solução adequada. E eles não resolviam. Eu estava aceitando qualquer novo método, e a RPG mostrou que havia uma possibilidade de não usar medicamento, ter resultados e fazer as minhas atividades normais. Com sessões semanais, a dor nas costas foi embora, e a do quadril diminuiu muito. Só sinto alguma coisa se deixo de fazer a RPG. Aí, a dor volta a ser diária — conta a arquiteta.

Menos danos e custos

O caminho que Luiza percorreu até encontrar alívio para suas dores é semelhante àquele que muitas vertentes da medicina estão trilhando no enfrentamento do problema das dores na região lombar — mal que atinge quase toda a humanidade, em um momento ou outro, e que é uma das principais razões para que se procure um médico mundo afora. Essa evolução foi documentada no mês passado, quando o Colégio Médico Americano, a maior associação médica dos Estados Unidos, apresentou novas diretrizes para o tratamento das dores na base das costas, a chamada lombalgia.

Fruto de uma análise dos trabalhos científicos sobre as mais variadas terapias disponíveis, o documento, publicado no periódico Annals of Internal Medicine, chamou a atenção por colocar em segundo plano, tanto nos casos de dor aguda quanto naqueles de doença crônica, a solução medicamentosa. Em lugar disso, a entidade orienta os profissionais a priorizar outras terapias. Entre as opções consideradas mais indicadas do que os remédios são citadas terapia com calor, massagem, acupuntura, exercício físico, terapia cognitivo-comportamental, tai chi e yoga, entre outras.

Em entrevista ao The New York Times, Nitin S. Damle, presidente do Colégio Americano, reforçou que a principal mudança trazida pelas novas diretrizes é dar prioridade às alternativas não farmacológicas. Em um texto divulgado pela entidade médica, ele foi além:

"Os médicos devem assegurar aos seus pacientes que a dor lombar aguda e subaguda geralmente melhora com o tempo, independentemente de tratamento. Devem evitar a prescrição de exames desnecessários e de remédios potencialmente prejudiciais, especialmente narcóticos. Para o tratamento da lombalgia crônica, os médicos devem escolher as terapias com menos danos e custos, uma vez que não há uma vantagem clara de um tratamento em comparação com outro".

As novas diretrizes devem consolidar, no mundo todo, uma linha não medicamentosa e multidisciplinar que vem ganhando espaço nos últimos tempos. O médico que encaminhou a arquiteta Luiza Seifred para a RPG, o ortopedista e traumatologista Jorge Schreiner, por exemplo, dirige uma clínica, a Coluna Porto Alegre, que conta em seus quadros com profissionais da Educação Física, da Fisioterapia e da acupuntura.

— A formação dentro das faculdades é dar analgésico, anti-inflamatório e eventualmente mandar fazer uma fisioterapia. Hoje sabemos que isso não é a solução, que o tratamento tem de ser amplo e multidisciplinar para dar resultado satisfatório. Temos acupuntura, terapia laboral, terapia do calor, atividade física, todo um leque de opções. Não é mais aquela coisa restrita de anti-inflamatório e relaxante muscular. Não se usa mais tanta medicação como no passado, e muita gente pode ser tratada sem medicamento algum. Esse é o futuro — afirma Schreiner.

Alternativas viram prioridade

As novas recomendações para o tratamento da lombalgia foram recebidas como uma importante mudança de paradigma por grande parte dos profissionais da área e pela imprensa internacional. A repercussão das diretrizes, que atualizam documento de 2007 no qual o uso de remédios tinha destaque, explica-se pela incidência das dores na costas. Calcula-se que, em algum momento, 80% a 85% da população mundial vai conviver com o tormento lombar.

Na maioria dos casos, serão vítimas daquilo que o Colégio Americano define como dor aguda ou subaguda — com poucos dias ou semanas de duração. Nesses episódios, o paciente melhora mesmo sem fazer nada. É mais ou menos como um resfriado: o problema gera bastante incômodo, mas segue um curso natural, que com frequência não requer intervenção e não produz complicações.

— Os médicos devem orientar e esclarecer os pacientes que dores agudas ou subagudas normalmente melhoram com o passar do tempo. Sendo assim, deve-se evitar tratamentos de custo elevado e com potencial para causar efeitos adversos, especialmente narcóticos — resume Fernando Neubarth, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia.

Para esses quadros, o que as novas diretrizes recomendam são soluções simples, como a aplicação de calor no local (por meios de compressas ou bolsas de água quente). Alternativas como massagem, acupuntura e manipulação também são elencadas, ainda que as evidências sejam de benefícios moderados. Apenas se esses tratamentos não ajudarem, pacientes e médicos devem discutir a possibilidade de medicamentos, como anti-inflamatórios ou relaxantes musculares.

Remédios nem sempre são eficientes

Uma situação mais complicada é a dor crônica, aquela que dura 12 semanas ou mais. Mas a recomendação básica segue a mesma: a busca de uma solução não farmacológica, o que seria ainda mais importante nesses casos, tendo em conta os custos, os efeitos adversos e até mesmo o risco de dependência.

— Se fala muito pouco nisso, mas a maior causa de efeitos colaterais e de problemas gerados pelo médico ou pela medicina envolve o uso de anti-inflamatórios não hormonais. Isso é até paradoxal, porque o uso é meio que irrestrito, disseminado. As pessoas utilizam sem critério, às vezes, por tempo prolongado, e sofrem efeitos colaterais importantes na função dos rins, no aumento da pressão arterial, na retenção de líquidos e nos problemas digestivos, com sangramentos que podem até causar a morte. Além disso, os medicamentos não são tão eficientes. Não vale a pena esse risco todo — alerta Neubarth.

Para a lombalgia crônica, as diretrizes recém-divulgadas propõem um leque maior de opções, que demonstraram algum grau de sucesso nos estudos realizados. Exercícios, acupuntura e redução do estresse estão entre as alternativas principais.

A forma de enxergar as novas diretrizes pode não ser consensual. Ericson Sfreddo, coordenador do Centro de Coluna do Hospital Moinhos de Vento, por exemplo, não vê grandes diferenças em relação às recomendações anteriores e ao que já se faz na prática cotidiana:

— A diretriz mostra preocupação de tentar unificar, padronizar o tratamento no mundo inteiro. É o mérito que ela tem. Porque na dor lombar há muita variabilidade de tratamentos. Se tu consultares um médico hoje, virar a esquina e consultar outro, vais descobrir que eles têm condutas por vezes até antagônicas. É complicado separar o joio do trigo.

Fonte: zh.clicrbs
 

 

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