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31.03.2014
ESPECIALISTAS REVELAM A CORRIDA DAQUI A 20 ANOS

As planilhas terão como base nosso DNA? Os recordes mundiais serão esmagados? Encontraremos a técnica perfeita?

O que será de nosso esporte preferido daqui a duas décadas? Nos dias de longão, nos períodos de molho e até nas férias, você já deve ter divagado sobre a corrida do futuro. Se bobear, até já bolou algum produto inovador que irá turbinar suas passadas. Novas pesquisas e tecnologias surgem a cada dia e fica difícil prever o que vem por aí. Mas um time de treinadores, professores, médicos, fisioterapeutas e diretores de marcas esportivas nos ajudaram a dissecar cada aspecto do universo da corrida. Prepare-se, foi dada a largada para uma verdadeira revolução.

O jeito perfeito de correr

Depois de muita polêmica, a poeira baixou. A corrida com os pés descalços deixou de ser vista como possível salvadora da pátria. "O que precisamos encontrar, por meio de pesquisas, é uma técnica biomecânica para a corrida que ainda não foi definida— e isso com ou sem tênis nos pés", afirma o inglês Lee Saxby, um dos treinadores mais influentes do mundo. "Esperamos que biomecanicistas e físicos cheguem a algum acordo, assim como ocorreu com os movimentos no golfe ou a sequência de movimentos na natação. A corrida ainda não tem esse modelo, mas, se a pesquisa nos leva a encontrar respostas, então coisas grandiosas acontecerão. Com um modelo que ajude a evitar lesões, a corrida será ainda mais acessível."

Lesões serão coisa do passado?

O segredo para a corrida perfeita não mora em uma caixa. "A prevenção de lesões está no desenvolvimento da nossa técnica de corrida", afirma o técnico russo Nicholas Romanov, especialista em biomecânica. Daniel Lieberman, professor de biologia evolutiva na Universidade de Harvard (EUA), concorda: "Precisamos investigar as variações nos movimentos e forças que agem nos tecidos e que podem provocar lesões".

Devemos ter menos achismo e mais investimentos nos estudos de prevenção. "Teremos acabado com as lesões de corrida daqui a 20 anos? Não, mas teremos encontrado mais respostas", diz Irene Davis, diretora do Spaulding National Running Centre na Faculdade de Medicina de Harvard (EUA). "Estamos começando a entender a relação entre impactos e lesões."

Não há um consenso sobre os benefícios da aterrisagem com o antepé na prevenção de lesões, mas, segundo o pesquisador Tim Noakes, autor do livro Lore of Running [em tradução livre, "Lendas da corrida"], "o fato de se começar a aterrissar no antepé desde quando se é mais jovem pode reduzir o risco de o corredor se machucar".

Quando falamos em análise da postura, a tecnologia 3D, utilizada em pesquisas há mais de uma década, deve se tornar ainda mais importante. Isso porque devem aumentar as informações sobre padrões de movimento e lesões e os modelos de análise prometem ficar mais sofisticados. "E o monitoramento móvel, como aplicativos para celulares, tênis especiais equipados com instrumentos para pesquisa e faixas ao redor do tornozelo, é definitivamente coisa do futuro", afirma Irene. "Essa é uma maneira importante de registrar os movimentos do corpo e reações fora do laboratório", diz.

Treinamento por dna?

Treinos sob medida, feitos para se adequar exatamente aos genes, podem se tornar realidade, segundo Noakes. "Compreenderemos melhor os fatores genéticos que influenciam diretamente nosso desempenho", afirma ele. Devemos ter tecnologia para medir nossa capacidade fisiológica de suportar diferentes tipos e intensidades de treino. Já está disponível na Inglaterra um dispositivo chamado Omegawave que rastreia sete marcadores fisiológicos e, depois, usa uma fórmula para avaliar a capacidade do corredor para diferentes tipos de esforço.

A análise de sangue será outra ferramenta para sincronizar o treino ao funcionamento interno do corpo. A empresa americana Wellness FX (www.wellnessfx.com) afirma que 70% dos dados necessários para o diagnóstico e tratamento precisos de problemas de saúde estão no sangue. Com uma amostra, eles podem fornecer mais de 20 biomarcadores que refletem o estado de saúde da pessoa, inclusive níveis de inflamação.

Também já foi usado em estudos bem-sucedidos em seres humanos um biossensor que fica implantado na pele (como uma tatuagem temporária) e monitora os níveis de lactato no sangue. Esse produto pode nos avisar quando estivermos próximos do nosso limite na corrida.

Controle da mente

Correr uma maratona ou uma ultra é um desafio 80% mental, afirmam diversos atletas e treinadores. Por isso, entender e aperfeiçoar o funcionamento do cérebro durante o exercício será outra área de desenvolvimento importante ao longo dos próximos 20 anos.

Treinar a mente para lidar com a emoção será tão importante quanto treinar as pernas. Nos Estados Unidos, o programa de Treinamento Cerebral da Neurotopia (www.neurotopia.com) usa um sensor de ondas cerebrais (colocado no fone de ouvido) para interpretar nossas reações. Esse sensor capta a atividade eletroquímica do cérebro e converte essa atividade para gráficos e um sistema de pontuação, dando feedback ao atleta. Conforme o cérebro se aproxima de sua meta, o atleta vê a pontuação aumentar.

Quão rápido podemos correr?

Devemos esperar melhoras contínuas dos recordes. "Mas aumentos dramáticos indicam doping", afirma Tim Noakes. Nicholas Romanov discorda e vê grande potencial de "esmagarmos" recordes no futuro. "Estamos muitos atrasados. Nossos corpos foram desenvolvidos para conquistas muito maiores e nós estamos, como espécie humana, apenas superando o principal obstáculo: nossa percepção acerca daquilo que podemos alcançar. Por exemplo, pelos meus cálculos, a capacidade atual do excepcional Usain Bolt em 100 metros é de 9s11, mas eu acho que nem ele está pronto para acreditar (ou até mesmo atingir) esse resultado. Eu não acho impossível bater as 2 horas em uma maratona e acho que podemos sim quebrar o recorde dos 800 metros novamente", explica Romanov.

Qual será o primeiro recorde a ser derrubado? "Eu gostaria de quebrar novamente o dos 200 metros", diz Bolt. "Quero ver se é possível correr abaixo dos 19 segundos. Isso seria muito especial. Mas a corrida teria que ser quase perfeita, do ponto de vista técnico, e o tempo teria que ajudar. Estou trabalhando para chegar lá!"

O inglês Steve Cram, atleta aposentado, lenda dos 800 e dos 1 500 metros, acredita que "muitos recordes são possíveis, mas o da maratona masculina é o mais vulnerável no momento". O treinador americano Terrence Mahon concorda que distâncias mais longas são mais suscetíveis. "Não me surpreenderia ver todos os recordes masculinos, dos 5 000 metros à maratona, serem quebrados nos próximos anos. Com a maratona isso pode acontecer algumas vezes, pois há muitos atletas de alto nível correndo atrás de tempos mais rápidos em percursos bons", diz ele.

As trapaças ainda terão vez?

Conforme a ciência legítima avança, inevitavelmente, seu lado negro faz o mesmo. Mas Mahon acredita que o controle do doping vai começar a vencer a guerra. "Os testes estão se aperfeiçoando, estão conseguindo se adiantar. Logo ficará muito difícil vencer o sistema."

Steve Cram também está otimista. "É um assunto que envolve atitudes amplas em relação às drogas na sociedade", afirma ele. "As coisas estão melhorando em termos de detecção, mas ainda precisamos de penas mais duras e maior financiamento internacional para desenvolvermos produtos e processos que melhorem substancialmente o desempenho."

Redefinindo o tênis de corrida

Encontrar o tênis certo terá um significado totalmente diferente em 20 anos. "Customização é a palavra de ordem: tênis feito sob medida, para a anatomia exata de seu pé: o encaixe perfeito, o cabedal reforçado na medida, o molde ideal para seu padrão de pisada", afirma Dave Dombrow, diretor de design da marca esportiva Under Armour. Segundo Leandro Moraes, gerente de calçados da Mizuno Brasil, "a construção do calçado deve fazer o atleta sentir que está correndo descalço".

Além da personalização, funcionalidade e adaptabilidade também serão características dos tênis do futuro: "Serão muito leves e se adaptarão de tal forma às demandas do corredor que serão quase uma extensão dos pés. O tênis responderá aos pés e os pés ao tênis, ajudando até a corrigir eventuais desvios de postura e pisada", afirma Terry Schalow, diretor de marca da Asics americana. "Os microchips em tênis são uma área interessante. Poderíamos começar uma maratona com o tênis em uma posição e, mais tarde, na prova, o grau de pronação tende a aumentar. O microchip enviaria um feedback e interagiria com o tênis para adaptá-lo: ele atenuaria essa pronação e compensaria a fadiga", afirma Dombrow.

Não falamos de tênis minimalistas, mas de mais calçados que permitam melhorar nossa percepção. A Nike afirma que a propriocepção (a sensação de onde o corpo está no espaço) agora é o foco de seu design, enquanto Lee Saxby espera por uma revolução nesse aspecto. "Seria muito estimulante se pudéssemos encontrar um material capaz de amplificar a propriocepção e dar um feedback sensorial", diz ele.

Tecidos mais inteligentes

O inglês Stuart Brooke, fundador da marca de vestuário para corrida Ashmei, é um visionário: "O vestuário será virtual. Você vai correr dentro de uma roupa colante com microfilamentos que poderá ser refrigerada a ar para acomodar o clima atual e também mudar sua aparência, para se adequar a seu humor e exigências de segurança, tudo ativado via iPod".

Outra promessa: o vestuário será feito sob medida, de acordo com dados, e ligado a um ecossistema de microchips para se adaptar às nossas necessidades. As roupas esquentarão, esfriarão, irão se comprimir e ficarão mais aerodinâmicas conforme as exigências do corpo. Parece enredo de filme de ficção científica? Não para boa parte dos especialistas consultados por esta reportagem. "A roupa será uma extensão da pele. Vamos usar materiais mutantes de fato: se está frio, ele te esquenta e, se está calor, ele abre os poros e te esfria", afirma José Favilla, consultor têxtil da tecelagem Santaconstancia.

As meias de corrida já estão em busca de uma maior propriocepção. Os modelos da marca Sensoria, que estão em fase de produção, têm sensores acoplados ao tecido para medir a pressão e fornecer dados a um smartphone. Esses sensores devem fornecer feedback em tempo real, que permitirá aos corredores ajustar a passada para diminuir o risco de dores ou até mesmo lesões.

Clube de corrida virtual

A mídia social atrelada ao fitness se tornará ainda mais relevante nas próximas décadas, principalmente as independentes de marcas. A Strava (www.strava.com), por exemplo, está se espalhando pelo mundo, permitindo a corredores e ciclistas comparar seus dados em trechos de asfalto e trilhas. Atualmente, a comunidade Nike+ domina o cenário, com o extraordinário número de 20 milhões de membros conectados digitalmente.

Mais provas à vista

A variedade de eventos e conceitos de provas só tende a aumentar. "Tanto as ultramaratonas quanto as distâncias mais curtas vão ficar mais populares, mas eu aposto que as curtas terão maior crescimento", diz Nick Tuppen, diretor da organizadora de provas Threshold Events, na Inglaterra.

Steve Cram, diretor da Maratona Salomon Kielder (www.kieldermarathon.com), na Grã-Bretanha, vê um futuro brilhante, no geral: "A corrida vai crescer ainda mais com a criação de novas provas, que devem seguir os gostos pessoais e os desejos dos participantes. O aumento de opções ajuda quem está começando a correr a expandir seus horizontes. Podemos fazer uma maratona em trilha em uma semana e, na próxima, uma corrida de 10 km na cidade".

A energia do futuro

Em relação à nutrição esportiva, é provável que existam muito mais regulamentos e pesquisa científica orientada para essa direção. E as pessoas entenderão melhor o papel da dieta na prevenção de dores e lesões. "Elas devem perceber, por exemplo, que ao reduzir a inflamação durante a corrida, o tempo de recuperação será menor. E que alimentos e bebidas podem ajudá-los nessa tarefa", diz o inglês Luke Heeney, diretor de produção da Science in Sport (SiS).

Cada vez mais atletas, especialmente maratonistas e ultramaratonistas, estão treinando com base em dietas cetogênicas, que têm a gordura como fonte principal de calorias, proteína em quantidade moderada e pouquíssimo carboidrato. "Com ela, passamos a contar com nossas próprias reservas de gordura para a prática de esportes. Ao contrário das nossas reservas de glicogênio, que são de cerca de 2 000 calorias, mesmo um atleta magro carrega no corpo umas 80 000 calorias de gordura", afirma o médico José Carlos Souto, que mantém o maior blog brasileiro dedicado ao tema: o Dieta Low Carb e Paleolítica.

Na outra ponta, também devemos ter mais atletas adotando uma dieta vegetariana. O ultramaratonista americano Scott Jurek faz uma dieta vegana e atribui à energia oriunda de vegetais sua maior resistência, recuperação e saúde geral. "Eu me sinto melhor do que nunca. Sempre tive ótima resistência, mas a dor que eu sentia após os longões sumiu. Eu me sinto mais leve e estou mais forte e mais veloz", afirma Jurek.

A corrida salvará o mundo?

Com a obesidade e a falta de exercícios se tornando os maiores assassinos do mundo atual, a corrida poderia encabeçar uma revolução no exercício. "Conforme mais gente se torna obesa por comer demais e se exercitar de menos, mais as pessoas terão que encontrar formas de se mexer", afirma Daniel Lieberman. "E não tem como a corrida, o esporte mais simples e barato, ficar de fora dessa equação."Segundo Jurek, "as maiores armas serão a educação e a orientação. E a corrida ainda é o exercício mais acessível".


 

Fonte: Exame

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